Artur AzevedoArtur Azevedo
HISTRIA DE UM SONETO
Antes de entrar definitivamente na vida prtica, Ludgero Baptista, hoje um dos 
nossos industriais de polpa, fazia versos. Eram rimas inofensivas; entretanto, 
um dos seus sonetos - um, pelo menos - foi escrito com ms tenes, e, se alguma 
desculpa tem o poeta, deve-a unicamente aos seus vinte e trs anos, idade em que 
o homem no sabe medir bem as conseqncias dos seus atos... nem dos seus 
versos.
Havia naquele tempo, como ainda as h, e em maior nmero, talvez, uma senhora 
casada, por nome Laura Rosa, um nome de flor, a qual se comprazia em arrastar 
atrs de si uma chusma de coraes masculinos, e cuja formosura fazia sensao 
em toda a parte aonde a levava o marido, um tal comendador Rosa, muito dado a 
festas e espetculos.
Ludgero encontrou-a um dia no Jockey Club, e aconteceu-lhe o mesmo que a todos 
os rapazes do seu gnero: enamorou-se dela. Dali por diante no perdia corrida 
de cavalos em que Laura Rosa estivesse, e, ou fosse que realmente os olhos da 
formosa dama lhe prometessem mais do que deviam, ou fosse natural filucia de 
namorado jovem, ele considerou-se autorizado a empregar algumas diligncias, a 
fim de que os seus amores sassem do perodo ingrato do platonismo, e entrassem 
numa situao mais positiva.
Para isso, recorreu  musa, que no abandona o poeta nessas emergncias 
exticas, e escreveu o soneto em questo. Era nada mais nem menos que uma 
injria, at certo ponto atenuada pela rima e pelo metro; mas, como se sabe, os 
fazedores de versos tiveram, em todos os tempos, o privilgio de insultar as 
senhoras, sem que a moral pblica os responsabilizasse por isso.
Eis aqui o soneto, que se intitulava:
SPLICA
 
Desde o dia feliz em que, pasmado,
Pela primeira vez te vi, senhora,
Um sentimento no meu peito mora
Feito de angstia e feito de pecado.
No creias que ningum houvesse amado
To loucamente como eu te amo agora,
Nem mesmo, oh! linda Laura, no de outrora
Cavalheiresco tempo celebrado!
Para que finde o meu suplcio airoso, 
Ou me concede o mendigado beijo, 
Este martrio transformado em gozo,,
Ou revela ao teu dono o meu desejo:
Talvez ele me faa venturoso, 
Dando-me a doce morte, enfim, que almejo!
 
Ludgero Baptista assinou esse desaforo com as iniciais do seu nome, L.B., e 
publicou-o na revista literria Nova Aurora, rgo especial dos "novos" daquela 
poca.
Publicado o soneto, mandou o poeta entregar um nmero do peridico  "linda 
Laura", procurando, naturalmente, ocasio em que o comendador Rosa no estava em 
casa, e tendo o cuidado de chamar, com um trao de lpis vermelho, a ateno da 
moa para os versos em que to indiscretamente ia envolvido o nome dela.
No sei qual foi o resultado obtido por Ludgero, nem isso importa  narrativa; 
creio, entretanto, que a splica no foi atendida: nem Laura Rosa lhe deu aquele 
"mendigado beijo", que era um eufemismo bandalho, nem disse nada ao seu dono, e 
ainda bem, porque se o poeta no logrou a ventura que almejava, tambm no 
perdeu a vida, que aproveitou mais tarde, nem mesmo apanhou a sova que merecia.
O caso  que o nosso homem tomou juzo, e abriu mo de todas as suas veleidades 
poticas, para cuidar de coisas mais srias e mais teis.
A fortuna sorriu-lhe. Aos trinta anos, estava ele senhor de algumas centenas de 
contos de ris, e aos trinta e sete principiou a sentir, pela primeira vez, 
necessidade de constituir famlia.
Isso coincidiu com o encontrar, em casa de uma famlia de amigos, a interessante 
Blandina, moa pobre, que realizava perfeitamente o seu ideal, quer no moral, 
quer no fsico.
Blandina contava apenas vinte e trs primaveras, justamente a idade que ele 
tinha quando escrevera a "Splica"; mas, no obstante essa diferena de quatorze 
anos, o casamento no lhes pareceu desproporcionado: queriam-se deveras.
Ela talvez fosse um pouco romntica, cheia de mistrios e devaneios, sequiosa do 
imprevisto e do ignorado; mas esse defeito, se o era, no repugnava ao que em 
Ludgero ficara do sonhador de outrora.
Casaram-se.
Casaram-se, e foram excepcionalmente felizes durante os dez primeiros anos; mas 
passado esse tempo, ele que estava s portas do semicentenrio e poderia passar 
por mais velho, ao passo que ela no parecia ter ainda os seus trinta e trs, 
julgou que sua mulher j no o amava como dantes...
Perdi o encanto - disse ele aos seus botes - tenho agora os cabelos grisalhos, 
engordei muito, sofro de reumatismo, e Blandina conserva a mocidade, a beleza e 
a elegncia que tinha na ocasio do nosso primeiro encontro... O nosso enlace 
no era, mas tornou-se desigual... Para sermos felizes at a morte, fora preciso 
que envelhecssemos juntos, como Filmon e Bucis...
Efetivamente, Blandina, que, durante os primeiros dez anos de casada nunca 
reparou que seu marido ressonava alto, no o podia agora suportar, queixando-se 
de no poder dormir ao som de um rabeco. Ao mesmo tempo deixava-se absorver, 
horas esquecidas, em longas cismas, e suspirava de instante a instante, como se 
alguma coisa lhe faltasse...
Ludgero inquietou-se, e comeou a observar com olhos ciumentos o que se passava 
em torno de si. No lhe tardou perceber que a sua casa era constantemente 
rondada por um rapazola, que poderia ser seu filho e, mesmo, filho de sua 
mulher. De uma feita, deu com ele  esquina entregando uma carta  cozinheira; 
escondeu-se, entrou em casa de mansinho, sem ser visto, e interceptou a missiva 
no momento preciso em que esta passava das mos da intermediria para as de sua 
mulher.
Ludgero tomou a mo de Blandina, que tremia como varas verdes, e levou-a para o 
interior do seu gabinete.
- Quem  aquele sujeitinho que te mandou esta carta?
- No sei - respondeu ela, e desatou a chorar.
- Por que choras?
- Choro, porque no tenho culpa. No sei quem me escreveu... Desconfio de um 
mocinho impertinente que costuma passar por aqui e me cumprimenta com um sorriso 
muito amvel quando me v  janela... Juro-te que eu devolvia essa carta sem 
abrir!...
- Abro-a eu! - disse Ludgero, engasgado pela comoo - e rasgou o invlucro. 
Estava dentro um soneto, escrito em papel ridculo, cercado de florinhas e 
rendilhado nos cantos.
Ao ler o primeiro verso,
Desde o dia feliz em que, pasmado,
o marido reconheceu logo o seu velho soneto, que tinha sido copiado, palavra por 
palavra, sofrendo apenas uma alterao no segundo quarteto: o nome de "Laura" 
fora substitudo pelo de "Blandina", o que, alis, desfigurava o verso, 
evidenciando que o copista era inteiramente hspede em metrificao.
Ludgero deu uma gargalhada.
- De que te ris?... Que h que te faa rir? - perguntou Blandina.
- Ri-me, porque o teu infeliz namorado te mandou um soneto que no  dele, e sim 
meu!
- Teu?
- Sim! A coincidncia  notvel... Vais ver!
Ludgero abriu uma gaveta, e tirou de dentro dela o nmero amarelado da Nova 
Aurora, em que vinha estampada a sua "Splica".
- Aqui tens! Olha! Compara! Est assinado com as minhas iniciais!
- Tu fazias versos?
- Fazia-os, e ainda os farei, se quiser - tanto assim, que vou escrever outro 
soneto em resposta a este, e hs de tu copi-lo com tua letra, e eu mesmo o 
entregarei ao tal mocinho.
- Est dito!
A prontido com que Blandina proferiu esse "est dito" foi a melhor prova que 
Ludgero teve de que poderia continuar a conserv-la junto de si. O mesmo no 
sucedeu  cozinheira, que foi posta na rua.
No dia seguinte estava escrita a resposta. Blandina copiou-a, e, na mesma tarde, 
quando o rapazola, parado  esquina, interrogava as janelas, Ludgero 
aproximou-se dele, e disse-lhe:
- Jovem, aqui tem a resposta de minha mulher ao seu soneto. Espero que, depois 
de l-la, o meu amiguinho no me rondar mais a porta; mas, se continuar, 
previno-o de que o mato a bengaladas!...
O rapazola fugiu, e no consta que reaparecesse no bairro. Foi esta a:
RESPOSTA
Para satisfazer ao seu pedido,
Na parte da denncia e no do beijo,
Revelei a meu dono o seu desejo.
Os versos entreguei a meu marido.
Este em vez de ficar enfurecido,
E de agarrar um ferro malfazejo,
Tomou a coisa  conta de gracejo,
E ps-se a rir como um perdido!
Pois se e ele o autor do tal soneto!
O senhor copiou-o da Nova Aurora, 
Estragando-lhe apenas um quarteto...
Ele, que a Musa j mandou embora, 
Cede-lhe os versos (discrio prometo), 
Mas no quer sociedade na senhora.
Blandina Baptista
Blandina leu todos os versos antigos de seu marido, e perdoou-lhe os cabelos 
grisalhos, o abdmen, o reumatismo e, at, o ressonar alto: adora-o.
Ludgero descobriu que o rapazola era filho de Laura Rosa; provavelmente, 
encontrou o soneto entre os papis da me, que j no existia...
O ex-poeta viu em tudo isso uma espcie de punio, e, como tem os seus momentos 
de filosofia barata, pensa muitas vezes que um homem pode ser ferido, mais dia 
menos dia, pela prpria arma que forja com inteno maligna, mesmo quando essa 
arma seja simplesmente um mau soneto.
